Capitulo 3 – Indomáveis Solitários (16º Dia)
08 de Janeiro de 2011, Aras Bom Jesus
Tive mais aulas de montaria, dessa vez montei só, obviamente com Pedro puxando o Máximus. Andavamos devagar indo em direção a cerca do campinho. E olha quem estava lá: justamente ele, meu Principe, o Gabriel. Ele estava encostado do lado de fora da cerca olhando para o dentro do campo.
O sol das oito horas batia nos olhos castanhos dele e os iluminavam. Um leve sorriso saia de seus lábios, enquanto estarrecido, observava outro cavalo que não era o Máximus.
“Bom dia, amigo!”, disse Pedro.
Gabriel não respondeu, parecia mais preocupado em admirar o cavalo do que querer responder, embora soubesse que estávamos ali, e fizesse menção de que fosse responder algo, nada saía.
Era como se quisesse responder e ao mesmo tempo estivesse preocupado em perder algum momento inusitado do animal.
Quando finalmente decidi não admirar a beleza de Gabriel, foi que percebi o porquê de tamanha admiração. Tratava-se de um cavalo preto, mas um preto aveludado, como se o cavalo inteiro fosse coberto de camurça. O pelo dele brilhava e ele corria por dentro do campinho solto em meio a relinchos e paradas bruscas para mudar de rota, com barulho da patas dando no chão, ao longo de um despojar de elegância sem palavras para definir.
A essas alturas Pedro continuava falando, mas ninguém o atendia. Foi quando sua tagarelice deu lugar ao mesmo silencio de Gabriel. O animal exibia uma imponência sem tamanho, que me fez entender novamente por que eu era tão encantada por cavalos. São elegantes e imponentes e isso me chama mais atenção neles.
Foi que olhei pra Pedro, já sentindo falta de suas tantas palavras estabanadas sem freio. E o vi, entristecido. O silencio medonho dos dois me corroia por dentro e eu me dividia entre o fascínio pela beleza do cavalo, e a agonia de não saber o que o olhar triste de Pedro significava.
Não sei quantos segundos durou aquilo, pareceram uma vida inteira. Até que, não aguentando mais, disse duas palavras:
“belo cavalo!”
Meu “belo cavalo” saiu mais ou menos com uma entonação de “que belos olhos você tem!”, mas surtiu efeito, por que um dos dois pelo menos resolveu acordar da inércia e interagir comigo.
“Éfesios!”.
“Hã?!”, não havia reconhecido a voz de Pedro.
“O nome dele é Éfesios!”, foi que percebi que não havia sido Pedro que tinha falado, mas sim Gabriel. Então pensei: “Uauuu! Ele também sabe falar, maravilha! Além de lindo, é da terra!”.
“Era o cavalo favorito de d. Marilene!”.
Hã? Oh, meu, sou nova aqui, queira explicar, vocês falam por códigos?!
“Quem é d. Marilene?”, perguntei.
A resposta demorou um pouco.
Mais silêncio.
Até que finalmente ouvi:
“Minha mãe!”, era Pedro, falando como se tivesse um grilo atracado em sua garganta.
Até que conclui: o cavalo fascina Gabriel e fascinava d. Marilene, e, embora o cavalo fascine a Pedro também, ele traz a Pedro a lembrança de sua mãe falecida. Uffa! Sou um gênio. Descobri tudo isso sozinha, acredita diário?
“Efésios nunca mais foi montado!”, disse Gabriel e prosseguiu, “ só uma pessoa montava nesse cavalo, ela era a única que ele se permitia montar.
“Essa pessoa era minha mãe! Ela amava esse cavalo e ele amava a minha mãe também. Ele não é muito sociável então para o seu bem, senhorita Stella, não chegue perto dele”.
“Senhorita Stella, Efésios estranha pessoas que não conhece e ele pode ser violento as vezes. Eu e Pedro o alimentamos e o guardamos, de vez em quando damos banho, tudo com muito cuidado. Até por que, mesmo ele nos conhecendo jamais nos permitiu montar nele, é por isso que fica afastado dos outros cavalos”.
“Desde que mamãe morreu, está só. Mamãe era sua única amiga!”.
CONTINUA…
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