Capitulo 2 – Uma Vida sem Amor (10º Dia)
Aras Bom Jesus, 31 de Dezembro de 2010
Os empregados estão trabalhando a toda. Essa noite terá uma festa em comemoração a virada do ano. Meu pai, disse a todos que os queriam aqui na confraternização. Um meio de nossa virada de ano, não ser como nosso Natal.
É, meu pai está aqui, chegou essa manhã. Meu coração disparou quando o vi. Senti tanta saudade de meu pai, esses dias. Em São Paulo, não havia um dia que não dormisse em casa. Foi aí que, algo aconteceu.
Ele chegou, estava na porta, baixou as malas. Seu porte alto provocou uma certa demora até se erguer de novo. Estava com aquele sorriso, “sou maduro, mas sou criança”, no rosto. Cara de pai que brinca com a filha e está com saudades dela. Foi que o vi e corri para abraçá-lo. Mas o celular dele foi mais rápido do que eu. Era o chefe dele. Não podia não atender.
Eu já ia tocá-lo quando senti a mãos dele me parando e ele dizendo: “espere só um estante, querida, negócios. O sorriso desapareceu do rosto e ar de mega-empresário o dominou novamente.
Meu espanto fez com que o sorriso desaparecesse de meu rosto também e toda a saudade em meu coração foi imobilizada por um sentimento frio, uma espécie de medo com tristeza. Um sentimento de desprezo. Senti-me rejeitada por meu pai. De repente me dar um abraço depois de dia sem me ver, não era mais importante que atender seu chefe de quem havia acabado de se despedir.
Não culpo meu pai pelo fato. Ele cuida da gente. Acho mesmo que todo esse sentimento foi nada mais que o acumulo de solidão dos últimos dias, culminando com um toque de “se afaste! Você tem uma doença contagiosa!”. Foi isso que senti quando meu pai me impediu de abraçá-lo, como se eu tivesse uma doença contagiosa.
Enquanto ficava ali, sem ação na frente de meu pai que falava ao telefone com o chefe dele. Podia ouvir a entrada e saída de pessoas dentro da casa, levando coisas, trazendo coisas. Barulho de liquidificador na cozinha. As cozinheiras falando sobre o ponto do molho. Rebeca rindo da discordância delas. Seu Antônio lavando o carro lá fora. Minha mãe descendo as escadas para falar com papai e dentro da minha cabeça uma dormência, é como se tudo isso estivesse acontecendo ao meu redor e eu mesma não estivesse ali. Aquela dor em minha alma e o bloqueio na mente tal que meu pai já havia me chamando algumas vezes e eu ainda não havia conseguido responder. Era como se o tempo ao meu redor passasse em “slowmotion” e o tempo dentro de mim estivesse totalmente parado.
Até que finalmente acordei e ouvi meu pai dizendo: “Stella! Stella! Querida, não vai dar um abraço no papai?”
Foi tal meu momento de anestesia que quando voltei a terra mamãe já o estava abraçando.
“Stella, não vai dar um abraço no seu pai?!”, mamãe disse. Ao que meio sem jeito com as palavras, respondi: “sim, sim, claro!”. E o abracei. Mas sentindo que as coisas já não eram iguais a antigamente. Que algo mudou e eu não teria mesmo controle sobre aquilo.
Aras Bom Jesus, 22:46.
Estamos na varanda. Há uma fogueira, há violões, uma mesa de madeira enorme para comermos, eu me vendo obrigada a sentar a mesa com a criadagem…
Se as meninas estivessem aqui, iam dizer que eu estou louca. Invenção do papai, é claro, mas a verdade é que isso é o mais próximo de uma vibe que irei ter nessa virada de ano. É melhor isso do que nosso natal parecido com um enterro. Lá em cima, papai nos falou sobre a crença de nossos empregados e que pediram que fizessem orações.
A observância de papai era que ele autorizou, em respeito, e pediu a mim e a mamãe que também respeitassem. Lembrou que eram funcionários da empresa e não dele, que ele era apenas um representante e que o verdadeiro presidente da empresa era um homem que tinha muitas estima por todos eles, principalmente pela família de seu Antônio.
Além de que, nossa estadia e conforto dependiam diretamente deles e como haviam nos recebido e nos tratado muito bem, não faríamos nem objeção, nem desrespeito com suas crenças e ritos. Papai, com um olhar discreto a mim, disse que devíamos tratar a todos com o máximo de carinho e respeito com os quais todos eles tem nos tratado.
Olhei para papai e perguntei: “por que o sr. Está me olhando? Por Acaso fiz algo errado?”
“Se você fez algo errado minha querida eu não sei. Estou lhe advertindo por que a conheço e sei que às vezes você precisa de freios! Trate a todos bem, isso foi uma ordenança principalmente de meu chefe, isso inclui a moça, a filha de seu Antônio.”
“Mas papai, eu não fiz nada!”
“Não estou dizendo que você fez, querida, estou dizendo apenas para não vir a fazer.”
Hunf! Preciso dizer que quis a cabeça da empregadinha em um prato? Claro que não preciso, não é querido diário? Você já deve entender que a amo de paixão, e a acho uma pessoa maravilhosa. Arg! Se não acho, pelo menos agora vou ter que fingir que acho. O emprego do meu pai depende disso.
Estão me chamando, vou indo mais tarde ou amanhã conto como foi a festa.
CONTINUA…
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